teresa projecto

dois

dois

Chamamos mãos negativas às pinturas de mãos encontradas nas grutas magdalenianas da Europa subatlântica. O contorno dessas mãos — abertas, pousadas sobre a pedra — era rodeado de cor. Muitas vezes azul, ou negro. Por vezes, vermelho. Não foi encontrada nenhuma explicação sobre esta prática.

 

Perante o oceano

sob o penhasco

na parede de granito

 

essas mãos

 

abertas

 

azuis

e negras

 

do azul da água

do negro da noite

 

O homem veio sozinho para a gruta

virada para o oceano

Todas as mãos são do mesmo tamanho

estava sozinho

 

Sozinho na gruta o homem

imerso no ruído

no ruído do mar

olhou a imensidão das coisas

 

E gritou

 

Tu que tens nome, tu que és dotado de identidade

amo-te

 

Essas mãos

azuis como a água

negras como o céu

 

Planas

 

Pousadas espalmadas sobre o granito cinzento

 

Para que alguém as visse

 

Sou aquele que chama

Sou aquele que chamou que gritou há trinta mil anos

 

Amo-te

 

Grito porque quero amar-te, amo-te

 

Amarei quem quer que me oiça gritar

 

Sobre a terra vazia ficarão essas mãos sobre a parede de granito viradas para o estrondo do oceano

 

Insustentável

 

Já ninguém vai ouvir

 

Nem ver

 

Trinta mil anos

As mãos aí, negras

 

O reflexo da luz sobre o mar faz estremecer a parede de pedra

 

Sou alguém sou aquele que chama que grita nessa luz branca

 

O desejo

 

a palavra ainda não foi inventada

 

Olhou a imensidão das coisas no rumor das ondas, a imensidão da sua força

 

e depois gritou

 

Perto dele as florestas da Europa,

sem fim

 

Detém-se no centro da pedra

das cores

dos veios de pedra

de todas as partes

 

Tu que tens nome tu que és dotado de identidade amo-te de um amor indefinido

 

Seria preciso descer o penhasco

vencer o medo

O vento sopra do continente afasta o oceano

As ondas lutam contra o vento

Avançam

lentificadas pela sua força

E alcançam pacientemente

a parede

 

Tudo desaparece

Amo-te para além de ti

Amarei quem quer que oiça que grito que te amo

 

Trinta mil anos

 

Chamo

 

Chamo aquele que me vai responder

 

Quero amar-te amo-te

 

Ao longo de trinta mil anos grita perante o mar o espectro branco

 

Sou aquele que gritou que te amava, a ti

 

 

«Les Mains négatives», em Le Navire Night, Le Mercure de France, 1979

Traduzido por mim, para os meus alunos de Teorias da Pintura.

 

Évora, 30 de Setembro 2025