corpo da pintura III, 2013
leitura de textos de Honoré Balzac, Herberto Helder, Manuel António Pina e notas do atelier

PRE — REFORMA, terceira edição
Faculdade de Belas-Artes, Universidade de Lisboa



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Pela primeira vez, tive medo. O medo tornou-se a força por detrás do que eu fazia. Uma mudança de velocidade, como um remoinho. Fiquei cego. Uma pintura táctil. Como se fossem os meus dedos a ver... E se comandassem a eles próprios. É isso que procuro. É isso que quero. Sim, é isso! Foi aí, penso, que me tornei verdadeiramente um pintor.Vou partir-te em pedaços. Vou tirar-te para fora do teu corpo. Para fora da tua carcassa. […] Quero conhecer e ver o interior do teu corpo. […] Tu não és livre, e eu também não. O corpo todo, não apenas algumas partes. Quero mais. Quero tudo. O sangue, o fogo, o gelo... Tudo o que está dentro do teu corpo. Tomá-lo-ei todo. Vou tirá-lo para fora de ti e pô-lo neste quadro. Vou conhecer o que está dentro, debaixo da tua fina superfície. Quero o invisível. Não, não é isso. Quero... Não sou eu que quero. É a linha... A pincelada... Ninguém sabe o que é uma pincelada. E eu ando atrás dela. Corro, corro... Onde vou? Ao céu? Porque não? Porque é que uma pincelada não rebenta o céu? Remoinhos! Galáxias, a decadência e o fluxo! Buracos negros! O reboliço original, já ouviste falar dele? É isso que sempre quis de ti. Vou desfazer-te, vais desmoronar-te. Veremos o que sobra, quando te esqueceres de tudo. Não te preocupes, tê-lo-ás de volta, se ainda o quiseres. Eu não quero nada, já te disse. É a pintura... Tu e eu estamos apenas envolvidos. Será um remoinho, uma catarata, um turbilhão. Mais rápido, mais rápido, até não veres nada, não sentires nada.



—  Não sinto o meu corpo.

—  Muito bem, eu também não.

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a voz de Frenhofer em La Belle Noiseuse, Jacques Rivette, 1991



corpo da pintura reúne diferentes momentos de investigação
que acompanharam o início do Mestrado em Pintura
na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa.
Todos foram apresentados no contexto das sucessivas edições da mostra PRE—REFORMA,
que decorreram entre 2012 e 2013.